Febrero de 2004
Fórum
social mundial supera e independe do Fórum
econômico mundial
Marcos Arruda
MUMBAI - 2004: UM FSM MAIS POPULAR
QUE INTELECTUAL
O rodízio é uma prática
salutar. O FSM se enriqueceu muito em Mumbai
ao permitir que inúmeras organizações
asiáticas, e grande número de
gente do povo da Índia, participassem
das marchas e dos debates que marcaram o FSM
2004.
Todos os dias, milhares de manifestantes
de diferentes países, com as mais diversas
roupas, cores e idiomas marcharam pelas ruas
poeirentas da grande área dedicada
ao FSM na cidade litorânea de Mumbai,
Índia: nela operou uma grande empresa
no passado; os galpões abandonados
foram reformados para abrigar as cerca de
150 mil pessoas que vieram participar do FSM
2004. A abertura atraiu uma multidão
ao parque voltado para o por-do-sol, onde
estava instalado um estrado e um sistema de
som e vídeo. O chão estava totalmente
coberto de sacos de aniagem, permitindo que
a multidão assistisse ao show musical
e aos discursos sentada no chão. Entre
as pessoas que falaram no evento de abertura
estavam o líder argelino Ahmed Ben
Bella, a jovem escritora indiana Arundati
Roy e Chico Whitaker. Os indianos tiveram
o cuidado de falar em hindi e depois oferecer
tradução ao inglês. O
discurso do Chico foi resumido para o hindi
com muito espírito pela animadora indiana.
As ruas do FSM estavam cheias da manhã
à noite, com japoneses e coreanos marchando
contra a globalização neoliberal
e o desemprego, mulheres indianas pelos direitos
da mulher, monges budistas tibetanos pela
Paz no Tibet e pela libertação
de monges presos pelo Exército chinês,
trabalhadores informais pelo direito a um
trabalho digno, Dalits (a casta dos Intocáveis)
contra sua condição desumana
de recolhedores de dejetos humanos (scavengers)
em troca de um salário de miséria,
servidores públicos contra a privatização
e o desemprego, portadores de deficiência,
grupos tribais, etc. O FSM 2004 foi marcado
muito mais pelo protesto, festa, alegria e
comunicação do que pelos debates
sobre os temas prioritários para a
sociedade humana mundial. Os problemas locais
continuam sendo prioritários para a
gente do povo. A mensagem é que, para
que os problemas como água, terra e
alimento sejam resolvidos, é preciso
que os povos se unam e lutem contra os seus
opressores hoje globalizados, e por uma economia
sob o controle das populações
trabalhadoras e a serviço das necessidades
humanas.
As conferências e painéis ocorreram
em grandes salões, com 4000 a 10000
lugares, mas os participantes preferiam estar
se manifestando nas ruas do que ouvindo os
debatedores. Estiveram no Fórum de
Mumbai pelo menos 150 mil pessoas. A Conferência
sobre "Terra, Água e Soberania
Alimentar" atraiu alguns milhares de
populares. São os assuntos aparentemente
mais dramáticos para os mais de um
bilhão de indianos. Os temas da economia
do povo/economia solidária atraíram
gente das Américas, Europa, e África,
mas apenas os indianos que já estão
envolvidos em atividades de comércio
justo, produção cooperativa,
microcrédito solidário, agricultura
familiar e desenvolvimento local participativo
e sustentável. As apresentações
e os debates foram de ótima qualidade
e progrediram em relação a 2002.
Um seminário dedicado à economia
do povo/solidária na Ásia focalizou
experiências na Índia, Tailândia,
Paquistão, e com elas contrastamos
práticas do Brasil, da província
canadense de Quebec e da França. Promovemos
mais de 100 eventos sobre comércio
justo. Se em 2003 tivemos 19 redes de economia
solidária promovendo os eventos em
Porto Alegre, em Mumbai tivemos 47 redes e
entidades articuladas na organização
desses eventos. Ao todo, estimamos ter alcançado
umas 8000 pessoas.
Os debates promovidos por Jubileu Sul e as
diversas redes nacionais e internacionais
sobre dívida, comércio internacional
e agências multilaterais foram anunciados
por faixas esticadas entre as árvores
por toda a área do Fórum. Foi
lançada a proposta de um Tribunal sobre
Dívidas Financeiras e Dívida
Ecológica em 2005. As campanhas contra
a NAFTA, ALCA, CAFTA, o acordo africano e
os acordos bilaterais neoliberais promoveram
vigorosos debates. A mídia indiana
cobriu o evento com algum destaque, inclusive
promovendo debates com participantes mais
conhecidos. A mídia internacional,
porém, deu uma cobertura limitada e
preconceituosa, pouco atenta para a riqueza
dos debates e das propostas; bem inferior
ao destaque com que brindou o Fórum
Econômico Mundial (FEM), de Davos, Suíça,
realizado uma semana depois do FSM.
DAVOS, MAIS ELITISTA DO QUE NUNCA
O FEM em Davos custou, apenas na rubrica
segurança, cerca de 18 milhões
de dólares. Contou com cerca de duas
mil pessoas, entre grandes empresários
e políticos de cerca de cem países,
e jornalistas. Seu título: "Segurança
e Prosperidade, Sinônimos da Paz".
O Ministro da Justiça dos EUA, John
Ashcroft, foi quem deu conteúdo a esta
sigla, promovendo o que seu governo considera
os temas globais prioritários, a luta
contra o terrorismo e contra a corrupção
oficial. Ashcroft sublinhou que estava se
referindo à corrupção
oficial dos governantes e não ao tipo
de desvio corporativo que está na origem
de grandes escândalos em empresas dos
EUA e da Europa como a Enron, a Tyco e a Parmalat.
A OTAN seguiu no mesmo tom, propondo a construção
de uma "parceria de segurança"
com Israel e os estados árabes em torno
do Mediterrâneo a fim de promover a
guerra ao terrorismo. O presidente do Paquistão,
general Pervez Musharraf, distoou dizendo
que a presença de tropas estadunidenses
no Paquistão não é necessária
para o combate a Al Qaida.
O Secretário Geral da ONU, Kofi Annan,
contrapôs ao discurso do falcão
de Washington um chamado "ao equilíbrio
da ordem do dia internacional", pedindo
aos participantes que não se esqueçam
do combate contra a fome no mundo e pelo desenvolvimento,
ocultos pela luta contra o terrorismo e pela
guerra no Iraque. Disse que a ONU está
em condições de agir pela paz
e pela segurança "não só
para o mais privilegiado membro da Organização,
hoje preocupado com o terrorismo e as armas
de destruição em massa. A ONU
deve proteger milhões de homens e mulheres
da ameaça mais familiar da pobreza,
da fome e das doenças mortais."
A Suíça organizou uma reunião
'informal' para tentar desbloquear as negociações
na OMC. Em 2004 não haverá reuniões
ministeriais formais. A reunião ocorreu
durante a sessão em que Kofi Annan
falava ao FEM. A Conferência Alternativa
"Olho Público sobre Davos"
manifestou-se com ênfase contra a iniciativa
suíça. "É escandaloso
que Ministros do Comércio e da Economia
se misturem com as grandes empresas sem consultar
a cidadania dos seus países",
disse Tony Juniper, de Amigos da Terra. "Eles
deviam, sim, ter ido ao FSM em Mumbai para
encontrar as pessoas diretamente afetadas
pelas suas políticas."
O criador do Fórum de Davos, Klaus
Schwab, propôs que se buscasse mudar
a atmosfera do FEM, para diminuir a vulnerabilidade
do evento aos olhos dos seus críticos...
"Nenhuma gravata, por um mundo sem fronteiras",
foi o slogan que lançou, esperando
que o ambiente mais informal aumentasse a
legitimidade do Fórum aos olhos do
mundo. Para completar, concebeu uma multa
de 5 ou mais francos suíços
para quem viesse de gravata. Este dinheiro
iria formar um fundo para obras de beneficência,
reforçando a imagem de uma elite global
socialmente responsável!... Merece
destaque um artigo crítico publicado
no Corriere del Ticino, Suíça,
de 24/1/04, em que Claudia Bergomi, de Fribourg,
mostra que o jornal, que devia difundir a
informação completa, usa etiquetas
e estereótipos que distorcem a realidade:
os manifestantes contra o FEM de Davos, assim
como os que se manifestam contra a OMC, o
Banco Mundial e o FMI, o G8 e outras expressões
da globalização neoliberal,
são etiquetados de "no global"
("não global"). O argumento
desses manifestantes, de que as decisões
sobre a economia e a política mundial
são importantes demais para serem tomadas
por um grupo restrito de políticos
e empresários, fica oculto e enfraquecido
debaixo de slogans fáceis, que simplificam
e desfiguram a causa dos manifestantes. A
autora denuncia que esta é uma tentativa
de minimizar a influência que eles poderiam
ter sobre nossa vida e nosso modo de pensar;
tentam induzir o leitor a não levá-los
a sério.
A ideologia a transmitir é que a globalização
é um processo irreversível e
que só há uma globalização
possível: a atual. Noutras palavras,
só este mundo é possível:
o das grandes corporações transnacionais,
o da competição selvagem de
todos contra todos, o da violência,
da guerra, o do consumismo sem limites, o
da desnaturalização do cotidiano,
o da mercantilização da vida
e dos bens comuns do Planeta, o da destruição
sempre crescente da Natureza. Portanto, continua
a autora, as elites do jornalismo trabalham
para desacreditar os que se manifestam contra
esta globalização, descartá-los
como 'jurássicos' contrários
ao progresso e a um futuro sempre mais poderoso
para a 'humanidade'. "É inconcebível
que, enquanto morremos das doenças
do bem estar, entupidos de colesterol, do
outro l ado do mundo alguém deva morrer
de fome depois de ter colhido o alimento que
terminou no nosso prato, ou no estábulo
do boi que terminou no nosso prato."